Infoecosys
ICEG

INFOECOSYS: De Olho na Conjuntura

 Produção Industrial brasileira em 2019

 Ricardo F. Rabelo

 

            Os dados da última pesquisa industrial mensal denotam uma aparente evolução positiva, o que esconde problemas estruturais e  conjunturais graves da indústria brasileira.

            De acordo com o IBGE, em fevereiro de 2019, a produção industrial  registrou alta de 0,7% frente a janeiro . Comparando-se com fevereiro de 2018, a indústria apresentou crescimento de 2,0%, mas  acumulou redução de 0,2% em 2019. No acumulado nos últimos 12 meses (0,5%) mostrou estagnação pois voltou a  apresentar o mesmo  resultado anterior, mas permanece em desaceleração desde julho de 2018 (3,3%).

 

Crescimento em fevereiro

            O crescimento da produção industrial em fevereiro em relação ao mês anterior deveu-se fundamentalmente  ao aumento da produção de  veículos(6,7%), produtos alimentícios (3,2%) e coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (4,3%). Em termos de categorias econômicas  o crescimento foi mais importante em  bens de capital (4,6%) e bens de consumo duráveis (3,7%). O  setor de bens de consumo semi e não-duráveis (0,7%) apresentou crescimento, após ficar estagnado por dois meses. Já o setor de bens intermediários (-0,8%)  foi o único a  apresentar  taxa negativa  devido principalmente à queda da indústria extrativa. Esta queda -  de 14,8% - , resultante  principalmente na produção de minérios de ferro, resultou dos efeitos do rompimento da barragem de rejeitos de mineração na região de Brumadinho (MG).

Gráfico 3

Fonte: IBGE

Acumulado em 12 meses

 

            No acumulado de 12 meses o crescimento da  produção industrial foi de 0,5% , ou seja, o mesmo resultado de janeiro (0,5%), o que significa  a manutenção da desaceleração observada desde julho de 2018.

            Em termos de categorias econômicas  , a categoria de bens de capital apresentou crescimento da produção de 4,6%, e a de bens de consumo duráveis, teve alta de 3,7%. O setor de bens de consumo semi e não-duráveis cresceu 0,7%. Já a produção de bens intermediários teve queda de 0,8%, influenciada principalmente pela queda da  atividade das indústrias extrativas.

Gráfico 4

Fonte: IBGE

 

 

Indústria tem queda de 0,2% no   1º. Bimestre

            No índice acumulado para janeiro-fevereiro de 2019, frente a igual período de 2018, a indústria teve redução na produção de  0,2%. Considerando as categorias econômicas, a dos bens intermediários  teve que da de 0,9% , pressionada pelas quedas em indústrias extrativas (-4,4%) e produtos alimentícios (-6,1%). Já o setor de bens de consumo duráveis cresceu 3,7%, puxado pelo  crescimento da produção de automóveis (7,6%). Os setores produtores de bens de consumo semi e não-duráveis (0,5%) e de bens de capital (0,1%) também tiveram expansão no acumulado do ano.

 

 

Os problemas estruturais da  Indústria

 

            Os dados de fevereiro revelam e ocultam a verdadeira evolução da indústria nesse período. Os dados de fevereiro são aparentemente positivos, mas a queda de 0,2 % em no 1º. bimestre mostra que ela  apresenta uma verdadeira queda de dinamismo num processo geral de desaceleração da economia.

 

            Um dos indicadores dessa perda de dinamismo se revela na acumulação de estoques. Se isto acontece significa que as empresas  produziram além do que foi vendido, e que pode levar  a uma redução da produção no período seguinte, limitando as expectativas de uma recuperação no curto prazo.

            Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), em fevereiro, o estoque efetivo das empresas comparado com o planejado subiu para 51,1 pontos. Foi o segundo aumento seguido e o patamar  mais alto desde setembro de 2018, quando havia uma possibilidade de uma retomada  da economia.

 

            Outros fatores importantes são: a baixa produtividade da economia brasileira nos últimos anos, aliada aos entraves à competitividade da indústria, o que acaba por resultar no retrocesso do setor, tanto na estrutura produtiva brasileira  quanto no sistema industrial global. Estas são as conclusões de um estudo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), sobre  as deficiências da industria no país.

            De acordo como IEDI podem ser citadas múltiplas causas do retrocesso na  evolução da produtividade: a baixa qualidade da educação, a parcial e incompleta integração internacional da economia brasileira, o nível de investimento interno muito menor que o recomendável e a pequena exposição à concorrência em algumas atividades.

            Mas o IEDI chama  a atenção para outros problemas mais recentes.  Os setores com maior crescimento de produtividade  perderam participação na economia como a  indústria intensiva em engenharia e Pesquisa e Desenvolvimento, cuja produtividade em 2010-2015 avançou 5% ao ano, versus 0,7% ao ano da manufatura em geral.

            De acordo com o estudo do IEDI  um outro problema é a convivência em um mesmo setor de empresas com nível de excelência e empresas de baixíssima produtividade, sendo que  as empresas de menor porte, cujo acesso ao crédito, a consultorias técnicas e a mão de obra mais qualificada é muito restrito, são as mais prejudicadas.

 

            Lembre-se que a indústria opera em uma economia  com fortes tendências recessivas. Isso é demonstrado pelos sucessivos cortes nas projeções de crescimento do PIB, que deve resultar em mais um resultado medíocre. A mediana das projeções do mercado para o crescimento da economia em 2019 foi reduzida de 1,95% para 1,71% na última  pesquisa Focus divulgada pelo Banco Central (BC).O  nível de atividade em fevereiro de 2019, frente a dezembro de 2018, segundo o indicador IBC-Br do Banco Central, registra declínio de 1% já descontados os efeitos sazonais. Já no setor de serviços,  o patamar de faturamento real  em fevereiro de 2019 era 0,9% menor do que aquele de dezembro de 2018. No comércio varejista , houve apenas 2% de crescimento entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019.

 

A desindustrialização em Marcha

 

            Outro problema estrutural e o mais importante é o processo de desindustrialização. De  acordo com o IBGE em 2018, a indústria de transformação contribuiu com apenas 11,3% do PIB do Brasil. Isso significa que , entre 2017 e 2018, a indústria de transformação perdeu 0,94 ponto percentual de peso na formação do PIB. O processo de desindustrialização faz também com que  os setores com maior intensidade tecnológica   percam  peso no PIB e, de outro lado, que os setores de serviços intensivos no uso de mão de obra pouco qualificada e de baixa produtividade ganharam bastante peso.

Gráfico 5

Fonte: IBGE